Durante décadas, o processo de projecto em arquitectura assentou em desenho CAD bidimensional. O BIM chegou para alterar este equilíbrio. Mas o que muda realmente com a sua adopção? Será uma transição tão linear e positiva quanto se pensa?
Talvez a transformação mais profunda seja esta: o projecto deixa de ser representação gráfica e aproxima-se de um protótipo digital do edifício
O modelo como protótipo digital
A diferença fundamental entre CAD e BIM não é tridimensional — é conceptual. No CAD, plantas, cortes, alçados e tabelas existem como elementos relativamente independentes, que o projectista mantém sincronizados manualmente. No BIM, tudo deriva de um único modelo integrado e parametrizado: alterar um elemento propaga-se automaticamente por toda a documentação associada.
Na prática, isto traduz-se em ganhos concretos e bem documentados:
- Produção e actualização documental mais rápida
- Coordenação efectiva entre especialidades, com detecção automática de conflitos antes da obra
- Controlo rigoroso de alterações ao longo do processo
- Extracção automática de quantidades e mapas de trabalho
- Organização e rastreabilidade da informação de projecto
O projecto BIM é, objectivamente, um produto mais rico.
Mas talvez a transformação mais profunda seja esta: o projecto deixa de ser representação gráfica e aproxima-se de um protótipo digital do edifício. Paredes, vãos, revestimentos e equipamentos não são linhas desenhadas — são objectos com propriedades, relações e dados técnicos associados.
Para quem trabalha em comunicação e visualização arquitectónica, há uma consequência directa: o modelo tridimensional existe desde o início do processo, não construído a posteriori como exercício de apresentação. A passagem para renderização de qualidade, realidade virtual ou animação torna-se estruturalmente mais natural — e menos redundante — do que num fluxo CAD convencional.
O projecto BIM entregue ao cliente tem mais conteúdo, mais rigor e mais potencial de utilização futura. É, objectivamente, um produto mais rico.

Os custos da transição — os visíveis e os que não se vêem
A transição para BIM não é uma troca de software. É uma reorganização profunda do fluxo de trabalho, da estrutura de custos do gabinete e das competências da equipa — e este aspecto é sistematicamente subestimado nas narrativas entusiastas sobre o tema.
Os custos directos são previsíveis: licenciamento por subscrição anual (em vez da licença perpétua a que muitos gabinetes ainda estão habituados), formação, hardware mais exigente. Os custos indirectos são os que mais surpreendem: a quebra real de produtividade durante os meses de transição, o tempo de desenvolvimento de templates e standards internos, e a necessidade de reorganizar processos que funcionavam há décadas.
A proficiência numa ferramenta BIM — o ponto em que o software deixa de ser obstáculo e passa a ser alavanca — pode demorar muito mais do que o período de formação inicial sugere.
A distância entre “saber usar” e “trabalhar bem” é substancial.
Existe ainda um problema que raramente aparece nas apresentações sobre BIM: o reconhecimento de valor pelo cliente. O cliente profissional — promotor, entidade pública, grande empresa — compreende e valoriza os benefícios operacionais do processo. O cliente particular, que representa uma fatia muito expressiva do mercado de arquitectura em Portugal, tende a avaliar sobretudo o custo final da obra, sem conseguir reconhecer o impacto positivo da modelação BIM.
Resultado: o gabinete investe mais para produzir melhor, mas não consegue reflectir esse investimento no honorário sem arriscar perder o projecto para um concorrente que ainda trabalha em CAD. Não há fórmula simples para resolver esta assimetria — passa por comunicação activa de valor, diferenciação de oferta e, em última instância, pela maturação gradual do mercado.

Interoperabilidade: o que o IFC promete e o que entrega
Uma das questões mais pertinentes — e menos transparentemente discutidas — é a da interoperabilidade entre ferramentas de fabricantes distintos. Pode uma equipa de arquitectura em ArchiCAD e uma equipa de estruturas em Tekla trabalhar eficazmente em conjunto? A resposta honesta é: sim, mas com limitações importantes.
O IFC (Industry Foundation Classes), standard aberto desenvolvido pela buildingSMART International, é o formato neutro de troca de informação BIM. A aprovação do IFC4.3 como norma ISO em 2024 reforçou a sua credibilidade institucional. Em teoria, equipas em software diferente trocam modelos via IFC sem perda de informação relevante.
A passagem de um modelo arquitectónico para software de análise estrutural ou de instalações técnicas apresenta lacunas significativas.
Na prática, a interoperabilidade horizontal — troca entre ferramentas de modelação arquitectónica — funciona de forma razoável. Já a interoperabilidade vertical, ou seja, a passagem de um modelo arquitectónico para software de análise estrutural ou de instalações técnicas, apresenta lacunas mais significativas: o formato IFC suporta informação estrutural, mas a implementação dessa funcionalidade nos softwares continua incompleta. Alguns exportam IFC com dados em falta, obrigando a correcções manuais; modelos complexos geram ficheiros muito pesados; e as equipas frequentemente têm dificuldades com nuances de implementação que não estão documentadas.
A suspeita de que o software proprietário subverte parcialmente este conceito é fundada. O ecossistema Autodesk funciona de forma muito mais fluida internamente do que em troca com ferramentas externas — o que cria uma pressão real, raramente explícita mas consistentemente presente, para que toda a equipa adopte o mesmo ecossistema e, em projectos grandes, a mesma versão do mesmo software.
A solução mais comum em equipas multi-plataforma passa por ferramentas de coordenação neutral — Navisworks, BIMcollab, Solibri — que agregam modelos de diferentes especialidades em IFC para efeitos de coordenação e detecção de conflitos. Funciona, mas exige organização e protocolo que não são automáticos.
O contraste com o mundo CAD merece reconhecimento honesto: o DWG atingiu uma ubiquidade que o IFC ainda não tem. A trajectória é clara — mas o ponto de chegada está mais distante do que as apresentações de vendas sugerem.
A distorção silenciosa nas decisões de especificação
Há uma consequência do BIM que raramente aparece na literatura do sector, mas que qualquer projectista experiente reconhece: a disponibilidade de modelos BIM por parte dos fabricantes influencia decisões de especificação que deveriam ser puramente técnicas.
O BIM funciona com elementos paramétricos — no Revit chamam-se families, no ArchiCAD objects — que transportam geometria, propriedades técnicas, referências de produto e dados de custo. O potencial é enorme. O problema é que este potencial depende inteiramente de os fabricantes disponibilizarem esses modelos.
Fabricantes com modelos BIM de qualidade tornam-se mais atractivos
Na prática, fabricantes com modelos BIM de qualidade tornam-se mais atractivos para especificação, independentemente do mérito técnico do produto. O projectista, pressionado pelo tempo, especifica o que tem disponível — não necessariamente o mais adequado. As bibliotecas de terceiros colmatam parte desta lacuna, mas com qualidade variável.
É uma distorção sistémica e silenciosa: o processo digital passa a influenciar decisões que deveriam ser tomadas por razões técnicas e económicas. Resolverá progressivamente à medida que mais fabricantes investirem em modelos de qualidade — mas no presente é uma fricção real que importa nomear.
O parque edificado existente: a questão sem resposta
Esta é, talvez, a questão mais complexa da transição BIM em mercados como o português, onde uma percentagem muito expressiva do trabalho de arquitectura envolve intervenção em edifícios construídos antes do BIM existir.
Para edifícios novos, o BIM integra-se naturalmente. Para intervenções em edifícios existentes sem base digital, coloca-se uma questão estrutural: qual o custo de criar um levantamento com o nível de detalhe necessário para BIM, e quem o paga?
As ferramentas de Scan to BIM — digitalização laser, LiDAR, fotogrametria — existem e são cada vez mais capazes. Permitem criar modelos precisos de edifícios existentes com maior rigor e menor margem de erro do que métodos tradicionais. Em obras de média e grande dimensão, há casos documentados de reduções significativas de tempo e de custos por eliminação de retrabalho. Mas o investimento em digitalização pode atingir dezenas de milhares de euros em projectos complexos — justificável numa reabilitação de fundo de um edifício de escritórios, dificilmente enquadrável numa pequena intervenção numa habitação particular
Criar o levantamento BIM de um edifício existente é um investimento com valor a longo prazo.

Imagem ilustrativa de equipamento de digitalização por LIDAR.
O problema não é técnico — é económico e cultural. Criar o levantamento BIM de um edifício existente é um investimento com valor a longo prazo: para futuras intervenções, para o proprietário, para o mercado imobiliário. Mas esse valor raramente é capturável no contexto de um único projecto de pequena escala. O custo recai sobre o projecto corrente, e o cliente que não valoriza o BIM vê apenas uma rubrica adicional sem contrapartida imediata visível.
Ficam questões genuinamente em aberto: O parque edificado pré-BIM ficará progressivamente desactualizado até intervenções de escala suficiente para justificar a digitalização? Quem financia essa transição — o Estado, o mercado imobiliário, o proprietário? É possível definir limiares de dimensão e complexidade abaixo dos quais o BIM pleno não se justifica?
Não há respostas definitivas. Mas formulá-las com clareza é o primeiro passo para uma discussão honesta.
Adopção informada, não evangelismo
O BIM é uma evolução genuinamente positiva para o sector. A sua capacidade de melhorar a qualidade de projecto, a coordenação entre especialidades e a gestão do ciclo de vida do edifício é real e crescentemente comprovada.
Mas a transição não é gratuita, não é instantânea, e não é igualmente adequada a todos os projectos e a todos os perfis de cliente. Exige investimento consciente e planeado. Exige honestidade sobre os limites actuais da interoperabilidade. E exige reconhecimento das questões não resolvidas — o parque edificado existente, a assimetria de valor com o cliente particular, a dependência crescente de ecossistemas proprietários.
Continuar em CAD indefinidamente é cada vez menos viável. Mas a adopção acrítica, sem planeamento e sem reconhecimento das fricções reais, é igualmente problemática.
A postura mais produtiva é a do profissional informado: adoptar onde faz sentido, planear a transição com realismo, e contribuir para a maturação de um ecossistema que ainda está, em vários aspectos importantes, a encontrar a sua forma definitiva.
Imagem de título de Evgeniy Surzhan na Unsplash
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